A não Toxicodependência

Há uns dias, li algures um técnico de saúde mental a dizer que a hiperatividade tinha a sua origem no excesso de ecrãs. Dentro de mim, discordei sem hesitar.

Se é da causa que estamos a falar, temos então de ir mesmo à sua origem. Certamente com um entendimento mais complexo.

 

À partida, uma boa qualidade no que respeita às relações primárias reduzirá significativamente a necessidade de a criança expressar determinadas dificuldades através do seu comportamento.

Os tempos têm mudado a nossa forma de viver. Se antigamente as crianças passavam mais tempo com os pais ou os avós, hoje estas estão involuntariamente fora das suas casas até tarde e, quando regressam, têm uma lista de tarefas para fazer trabalhos de casa, banho, jantar, etc. O tempo de relacionamento interpessoal entre a criança e as figuras parentais praticamente não existe. A nível emocional, o que a criança mais precisa é de relação, mas vê-se sobretudo embrulhada em deveres inultrapassáveis.

Cada vez mais podemos perspetivar a criança a ser tratada como um produto. O futuro médico, o futuro engenheiro, o futuro professor, tudo num funcionalismo que obedece a um sistema que não pode parar. Não vemos saídas profissionais de cantor de rock ou de malabarista circense. Existem, sim, vagas para preencher, com foco na necessidade de uma sociedade de produção, em detrimento da realização de um qualquer sonho infantil. Estamos com tanta pressa que nos esquecemos de olhar para eles. Para o que eles querem. Para o que eles sonham. Acaba por existir um desligamento, fruto do esforço diário dos pais para contribuírem, com exaustão, para a demanda moralmente correta, e um desgaste dos filhos em suportar a ausência dos seus objetos mais queridos, enquanto se adaptam a cenários alternativamente propostos por figuras substitutas.

Em grande parte das famílias da nossa atualidade, a relação não está guarnecida da disponibilidade e do contacto que a criança tem, à partida, como seu direito adquirido. Há, sim, uma espécie de desorientação provocada pela precariedade da tão esperada relação.

 

Quando os olhos da criança procuram amor, empatia e ligação e recebem ordens e orientações de tarefas, há algo na ordem da desacreditação que acaba por reformular esse contacto arelacional e uma certa compensação em estímulos alternativos que, por si, nunca irão substituir as figuras originais. E, como tudo aquilo que é procurado compensatoriamente tende a tornar-se compulsivo, faz que não cesse a procura da alternativa, condenada à partida à falha do seu objetivo.

Será isto a estar na base da hiperatividade. O ecrã será mais um dos estímulos SOS, por sinal suficientemente forte para, hoje em dia, ser um dos eleitos e quase predominante na vida das crianças. É consequência, não origem. A criança quer estímulo bom e vai encontrá-lo, alternativamente, também no ecrã.

Se o melhor de tudo para uma criança, que são a mãe e o pai, não o podem ser na relação, esta irá fugir da relação que lhe provoca uma quebra na expectativa. A criança vai procurar tudo e nada, numa substituição que em verdade não acontece.

 

Quando falamos aqui de figuras substitutas ou da criança perspetivada como elemento contributivo para o funcionamento de uma sociedade, importa trazer o tema da escola.

Até que ponto será benéfico uma criança passar oito horas do dia sentada e focada numa consecutiva absorção de informação cognitiva? Talvez haja opiniões muito divergentes neste tópico. Por outro lado, fará sentido um adulto ter de controlar” trinta crianças sem as ter de diagnosticar como hiperativas, face a toda a experiência desconcertante que dali emerge?

 

No fundo, a sociedade construiu-se assim. Tudo num espírito de que faz bem às crianças aprenderem tanto, ofuscando assim o lastro da possível culpa parental. Os pais ficam satisfeitos com a aprendizagem dos filhos e podem dedicar-se à sua contribuição para a produtividade mais descansados. O próprio sistema não deixa fazer ou pensar diferente. Se um ordenado paga a renda, o outro paga a alimentação e as contas. É inviável refletir sobre se faz bem ou mal à criança estar sentada e atenta tantas horas por dia; ou refletir se a própria relação familiar se torna quantitativamente fugaz e de qualidade parca quando, em tão pouco tempo, se tem de fazer tanto.

 

Acabei por ter como clientes muitas mães, por estas se sentirem perdidas ou inseguras nas suas relações para com os filhos. Isto porque, embora sentissem que o correto para elas seria cuidar de determinada maneira no seu contributo para o desenvolvimento dos seus filhos, viam-se rodeadas de pessoas que expressavam convictamente opiniões contrárias.

Um dos principais temas que surgia era o tema da dependência, que acabava por ser conotada como uma coisa negativa.

Ora, mais uma vez, há que dissecar e analisar conceitos. É a dependência uma coisa má”? Porque é que esta palavra se apresenta como tão assustadora, nomeadamente no que toca ao desenvolvimento infantil?

 

Antes de mais, existe algo que é fundamental compreendermos à luz da psicanálise. Por norma, existe sempre um primeiro tempo benigno e um segundo tempo maligno, se é que assim podemos apelidar. Por exemplo, como acontece com o narcisismo. Existe um narcisismo primário, que é fundamental para a boa auto-estima do sujeito; e existe um narcisismo secundário, que é a compensação da falha do narcisismo primário, sendo esse negativo em todos os sentidos. Portanto, em muitos cenários, podemos ver a coisa saudável original e a sua compensação posterior quando acontece a falha da primeira. O mesmo parece acontecer com a dependência. Nós somos sujeitos dependentes. Sem cuidadores, morremos, mesmo que só por abstinência afetiva. Com pouco amor, esmorecemos. A relação de dependência que temos na infância com os nossos pais permite-nos receber. Vamos nutrir-nos nessa ligação de receber, dependendo deles para isso. Este processo é fundamental para que a pessoa se sinta preenchida, segura e autónoma.

Tenho para mim uma máxima -“É preciso dependência para se atingir independência”. Quando esta relação de uma dependência saudável não existe, à partida irá permanecer um vazio. E aí, sim, vêm as dependências compensatórias, que procuram tapar este vazio, em vão, porque são de fora para dentro e que, por isso, se tornam compulsivas, de alívio temporário. Por dependências compensatórias designamos todas as dependências que se associam a algo negativo, como compulsão alimentar, alcoolismo, toxicodependência, vício do jogo e por aí fora.

 

Agora, existe um erro inocente quando colocamos a dependência primária e a dependência secundária ou compensatória no mesmo saco. É costume ouvirmos: Estás a mimá-lo demais”; Ele já não devia andar no colo”; Já devia comer sozinho”; etc., etc., etc. Aqui, estes cuidadores, com a melhor das vontades parentais possíveis, muitas vezes estão a reger-se pelo medo, mais do que por aquilo que se apresenta como importante para o bom desenvolvimento infantil. Por exemplo, a ideia movida pelo medo de que, se a criança não dormir sozinha, se vai habituar a dormir só tardiamente. O medo de estragar… É aqui que a mistura destes dois tipos de dependência pode deturpar o efeito benéfico que a primeira e primária dependência tem.

Para começar, a criança passa por fases extremamente distintas. O que a criança precisa numa determinada fase não vai precisar noutras, pois, internamente, as suas transformações evocam uma mudança psíquica na própria. Por isso, as próprias crianças vão procurando nos pais as necessidades que estão a ter e essas mesmas necessidades vão sendo diferentes consoante a fase que estão a atravessar; segundo, e talvez mais clarificador, temos de olhar para a teoria da vinculação para nos tranquilizar. Não irei descrever aqui essa teoria na sua extensa forma, mas, em suma, ao longo do seu desenvolvimento, a criança vai fazendo tentativas de afastamento em relação aos seus cuidadores e voltando a eles para confirmar que estão lá. Quando se sente confiante e estruturada, a criança fica autónoma, não precisando de confirmar a presença dos pais. É a isto que se chama uma vinculação segura. A criança ficou preenchida por estar acautelada que as figuras de referencia estariam lá para as suas necessidades.

 

A criança faz a transição do objeto concreto para o objeto simbolizado. Inicialmente, confirma a sua figura de segurança no concreto, no real, no que respeita à sua disponibilidade, ao cuidado e ao afeto parental; depois, incorpora-a em si, em símbolo, em fantasia. Já não precisa de confirmar no exterior. Tem-na dentro dela.

Quando uma criança pede para ir para a cama dos pais; pede para lhe darem comida à boca; pede para lhe lavarem os dentes; pede para brincarem com ela ou simplesmente para ficarem lá perto, está a pedir confirmações. Está a fazer uma reparação de dúvidas do objeto simbólico que está a construir dentro de si. Não vai ficar dependente! Está a construir, a cimentar, a sua independência. Está-se a assegurar de que os pais estão lá para ela e de que sentem amor por ela.

Por outro lado, quando os pais sentem este receio de estagnação ou de que estão a estragar com mimo, também vamos presenciar um afastamento da criança, mas não é um afastamento seguro. É um afastamento por desistência. Tal como deixar um bebé a chorar para dormir sem os cuidadores à vista, como tantos pediatras ainda recomendam. Vai funcionar. O bebé vai parar de chorar. Não vai procurar mais os cuidadores, mas por desacreditação no vínculo de cuidado e de amparo. É precisamente o oposto de uma vinculação segura. Na vinculação segura, o afastamento é voluntário; na vinculação insegura, é forçado. Morre algo dentro da pessoa. Fica um vazio afetivo que, à partida, mais tarde terá de ser compensado por alguma dependência secundária, essa sim, prejudicial.

 

A relação terapêutica surge como uma nova oportunidade de dar moradia a essa vinculação perdida. É criada uma relação que implica uma certa dependência benéfica, de forma a ser réplica de tempos de construção primária e, de certa forma, a pessoa vai viver uma confirmação de uma relação contentora de todas as angústias e medos pessoais, até que essa relação passe a ser simbolizada e capacitante o suficiente para criar uma independência. Assim, não existe independência sem dependência; é a dependência que proporciona a independência.

 

Costumo dizer às mães para se ouvirem a elas próprias; para, de certa forma, serem extraterrestres”, no sentido de se alhearem um pouco do que todos dizem à sua volta e ouvirem o seu instinto materno, porque esse, à partida, vai cuidar bem. Há só aqui uma nuance importante. Fazer uma terapia analítica na fase da parentalidade apresenta-se como algo importante para conhecermos o que é nosso e o que é do outro. Às vezes, algumas mães ou pais referem medos agigantados deles próprios que depois, mesmo não querendo, acabam por projetar nos seus filhos. É muito importante esta consciência do que é uma problemática dos cuidadores, para que isto possa ser distinguido internamente do instinto materno. Uma coisa é o instinto materno; outra coisa são os medos projetados para algo que é quase uma continuação da própria pessoa. Quando isto consegue ser separado e o instinto materno é colocado em cima da mesa, à partida a criança vai desenvolver uma boa segurança interna. E, se a vinculação é segura, essa relação cumprirá a função de nutrição, não precisando de futuro de substitutos compensatórios para uma falha da relação original.

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