A ambiguidade do acto de Validação

Ao longo destes artigos tenho trazido uma reflexão sobre certos conceitos, a qual intenta extrair mais nuances e perspetivas sobre os mesmos. Por vezes existe mais complexidade, e julgo que necessária, do que o significado que, à primeira vista, é comummente deduzido em alguns conceitos. Talvez seja necessário percebermos como e onde aplicá-los, pois o seu emprego nem sempre tem a mesma função.

Para esta rubrica, lembrei-me de falar sobre validação”. Este conceito apresenta-se-nos, à partida, como algo benigno e importante. Contudo, pode também ter um papel nocivo, nomeadamente no que toca às relações interpessoais.

Como seres humanos, é natural a nossa procura de validação junto dos nossos elementos de referência: nos nossos pais, nos nossos pares, nos nossos professores, no meio onde estamos inseridos… Essa validação, quer pessoal, académica, artística ou profissional, vai conferir-nos autoestima e crédito, validando a nossa construção identitária. Assim, a validação apresenta-se como algo positivo. Algo que nos coloca em relação e alinhados com o que pode ser esperado e valorizado pelas figuras de referência.

Contudo, nem sempre a validação se reveste desta qualidade benigna. Em algumas situações, a validação pode ser contraproducente. Por exemplo, a validação por um coletivo com ideias destrutivas ou assentes em falsas crenças. Neste caso, os aspetos destrutivos da pessoa serão validados pelos pares do grupo, que se autocredita de razão para valores menos nobres, como o racismo, o terrorismo, entre outros com maior ou menor expressão.

Mas há ainda situações correntes do nosso dia a dia em que a validação, aparentemente benéfica, pode trazer mais dano do que benefício. É o caso da procura de validação de terceiros em situações em que uma relação não se encontra saudável. A rutura de uma relação pode suscitar confusão e dúvidas sobre o nosso papel nessa dinâmica. Será extremamente tentadora a rápida recuperação da autoconfiança, assim como da autoestima, através do apelo à validação por meio de outros vínculos de referência. Quando essa validação já não se apresenta possível através da relação original, esta validação secundária irá servir como um reforço das convicções abaladas do sujeito na sua posição perante o outro da relação.

De certa forma, podemos compreender a necessidade desta compensação. Contudo, isto também nos remete para uma eventual falta de validação primária. Uma validação de que qualquer bebé ou criança precisa e que traduz o índice de qualidade, mais ou menos sólido, da sua estrutura-base. É plausível pensar na existência de uma relação entre a necessidade de validação pelos pares e a qualidade da validação primária.

Numa relação, quando a capacidade empática diminui ou é interrompida, deixa de haver bilateralidade. Erguem-se muros e trincheiras. O amor dá lugar à guerra. Deixa de haver entendimento e investimento. É um movimento brusco e talvez estúpido. Sabemos que o problema nunca mora sozinho. Há uma embrulhada de egos que impede um voltar à relação, onde seria necessária uma dose de humildade para que tal fosse possível. Penso ser uma vitória refazer amor depois de uma batalha. Ter como fim, não o ganho da guerra, mas o deslocamento das armas.

Aqui é onde a validação pode entrar como um erro traiçoeiro. Quando vemos validada uma posição e não a relação, a vitória” mora em quem ganha. E aí não estamos a falar de uma relação empática.

Quando alguém, pela força da necessidade, se torna muito validado na sua posição, o espaço para olharmos para as nossas ações, assim como a possibilidade de as trabalharmos, fica bastante mais reduzido. E seria esse trabalho de nos trabalharmos o meio de conseguirmos entender-nos com o outro. Contudo, a validação está gratuitamente ao virar da esquina, o que pode ser bastante tentador. E, por vezes, nem é necessária a sua procura. Na sua ingenuidade, e na melhor das intenções, os nossos amigos vão dizer-nos exatamente o que queremos ouvir. É quase condição genéticaesta função do amigo ou da amiga. Mas que também, de certa forma, nos retira da realidade. Dá-nos uma força de super-herói.

As relações são, por si, complexas. O aprofundamento, ao longo do tempo, da coexistência de duas identidades diferentes é quase uma missão impossível. Enquanto estamos dotados e investidos de função empática, a relação vai funcionando. Contudo, quando essa capacidade cessa, como tudo acaba por cessar, as partes da relação lançam torpedos e afundam a sua bilateralidade, passando a existir uma ponte de um só sentido.

A validação é, assim, um sweet and sourno que toca às suas consequências. Tanto pode ser gratificante e, de certa forma, estrutural, pois solidifica a aquisição identitária do bebé ou da criança, ou ainda conferir uma confiança benigna em momentos mais desafiantes. A validação das vontades permite uma maior autoconfiança na expressão e noção do próprio. Como pode ser potencialmente nociva quando usada de forma gratuita, sem reflexão e desligada da realidade, o que pode contribuir para uma cegueira perante toda a subjetividade e complexidade que compõem as relações humanas.

A nuance problemática aqui será a não perceção, pelo próprio, de quando esta validação é construtiva ou não, uma vez que a procura desta validação urge do mesmo sentir de necessidade de confirmação e de acreditação.

Num cenário ideal, esta validação deveria servir a função da construção de uma identidade-base, tal como uma criança precisa de sentir que a sua expressão, separada e diferenciada dos seus cuidadores, tem tempo e lugar. Por outro lado, quando esta validação tenta justificar um certo posicionamento face a outra fração, aí poderemos estar a afunilar o nosso espectro de perspetivas. No fundo, esta última forma de validação secundária ou compensatória também pode ser considerada como estando em função do reforço identitário. Contudo, remete sobretudo para uma sobreposição de identidades, e não para um fortalecimento do sujeito na relação com o outro.

A busca da validação para a força ou para o poder é muito tentadora. É facilmente tentadora, para que não seja tentada. Por ser fácil esta união para a força, é difícil que não seja procurada; é difícil que não seja disseminada; é difícil de ser pensada… pois está em ato de poder. Está em exercício de missão; está em crença de convicção; está cristalizada e enraizada. Acaba por ser uma necessidade que derruba o entendimento e a nossa capacidade de estarmos mais em relação uns com os outros.

Tal como o narcisismo secundário é uma patologia de compensação de um narcisismo primário mal construído, parece-nos que este segundo grau de validação coletiva possa constituir uma compensação por uma precária validação primária, que, quando bem edificada, é fomentadora de uma identidade coesa. Assim, a procura de validação posterior é como se representasse uma segunda camada face a um primeiro ato de validação pouco consistente.

Todas as identidades têm vontades diferentes e o desafio será a conjugação, em possível harmonia, dessas diferenças pessoais. Para que isso seja possível, talvez seja necessária uma validação quanto baste. Se as crenças forem significativamente reforçadas em grupo, criamos frações inimigas. A comunicação perde, porque a linguagem do outro deixa de ser compreendida. Gera-se uma confiança cega. No fundo, este é um grande problema que se expande a toda a humanidade. Estamos cheios de frações e a validação coletiva aparece como a sombra que circula por detrás destes extremismos. Temos frações conflitantes entre países, partidos, clubes, pessoas e por aí fora.

Ocorre-me a música de John Lennon, Imagine”. Um mundo sem religiões, sem países, sem guerras, sem posse… Só é possível imaginar. Na realidade, precisamos de crenças e de posse. Vivenciamos vínculos afetivos desde pequenos (a mãe é minha”), assim como acreditamos, por exemplo, na constância do objeto, que algo, por não se ver, pode permanecer lá. Mas, sobretudo, esta ideia bonita que podemos imaginar remete-nos para a entrega à nossa vulnerabilidade e para a capacidade (if you try”) de conseguirmos viver com ela, sem nos termos de munir de artilharia passada, de nos barricarmos contra o inimigo. Estes versos apelam a que tentemos ser melhores humanos. Não vamos deixar de ter manias, desejos e crenças, mas talvez possamos também co-validar a identidade do outro na relação connosco.

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