Parece-me que temos tendência a tentar ter o máximo de certezas possível – no mundo, nos outros e em nós. Usamos o conhecimento, a ciência, a fé, como espécies de guias que nos digam aquilo que é certo e errado, e como podemos obter determinado resultado como, por exemplo, num dilema universalmente compartilhado, ser feliz. Imagino que exista uma desilusão geral quando descobrimos que não há uma fórmula que possamos aplicar à nossa vida para alcançar a felicidade. Muitos de nós continuam a tentar encontrar esta fórmula através do que acham ser mais eficaz e, neste sentido, podemos viajar entre várias áreas de conhecimento – diferentes culturas, ciências, sistemas de crenças, enfim, algo que consiga trazer o mínimo de alívio a esta incerteza que amedronta até os nosso fantasmas mais antigos.
É nas supostas “certezas” ou “verdades absolutas” que tentamos encontrar um porto seguro para atracar o nosso barco e descansar das marés atribuladas e ventanias desmedidas pelas quais forçosamente viajamos na esperança de avistar um pedaço de terra pacífico, sossegado, pleno. Mas, é também ao atracar o barco que nos deparamos com um baú repleto de incertezas, umas já conhecidas e outras por conhecer, e, então, começa novamente o questionamento sobre se é o local certo para descansar ou, até mesmo, para viver. Porque nenhum local parece suficiente quando a procura é um lugar de certezas. Quanto mais procuramos, menos encontramos. Por isso, muitas vezes ouvimos “a ignorância é uma benção” – os ignorantes parecem encontrar a felicidade mais rapidamente, de modo mais intuitivo e espontâneo. Inevitavelmente, acaba por surgir a pergunta: Porque é que depois de tanto esforço, não conseguimos ter certezas de nada? Ou, por outras palavras, porque é que não conseguimos simplesmente ser felizes?
Aceitar a incerteza na sua plenitude é um desafio interno imenso, incalculável. É como tentar procurar linhas retas no delinear de um círculo. Alguém nos disse que existem, mas não as conseguimos achar. A incerteza, o questionamento, o pensamento crítico é aquilo que nos leva para além do convencionalmente aceite e é aquilo que nos permite viver o extraordinário. Mas, o extraordinário não será igual para todos, tal como não o será o ordinário. Por sermos seres únicos, não conseguimos colocar-nos numa caixa que represente a totalidade dos nossos vértices com todos os detalhes e pormenores que os caracterizam e diferenciam. Precisamos, talvez, de algo mais abrangente e, possivelmente, sem uma forma definida para conseguir conter a imensidão do nosso constante crescimento. Ao existir certeza, algo estrategicamente definido, existe também uma limitação – daquilo que é possível, daquilo que podemos alcançar. A incerteza pode ser assustadora, como olhar para dentro de um poço no qual parece apenas existir uma escuridão interminável, sem a possibilidade de conseguir definir algo em concreto, mas, ao mesmo tempo, pode também ser sentida como um poço de liberdade e de infinitas possibilidades, onde padecemos da soberania para criar tudo aquilo que a imaginação nos permitir. Não há limite. Criamos a liberdade para ser quando nos desprendemos.
Por vezes, nem certezas do que sentimentos neste preciso momento temos, como é que iríamos ter certezas de algo “maior”? Habituamo-nos a reger a vida consoante as certezas que nos vão sendo incutidas e que satisfazem o nosso desejo pelo controlo do indomável e, quando estas falham, ficamos perdidos, não sabemos para onde ir porque tudo aquilo em que acreditávamos, desapareceu e já não existe na realidade momentânea.
Gosto de encarar a vida como uma incerteza libertadora. Não há um caminho certo, não há um caminho errado – existem vários caminhos e, todos eles, repletos de possibilidades imprevisíveis e extraordinárias. Quando nos perdemos, damos existência à oportunidade de reencontro.


