“A dor invisível: o adoecer somático”

Quantas vezes uma dor surge precisamente em períodos de ansiedade intensa?

Quantas vezes dizemos “tenho borboletas na barriga”, “um nó na garganta” ou até “um aperto no peito”?

As manifestações somáticas são reais e expressamo-las inúmeras vezes sem nos apercebermos disso. A somatização é uma tentativa de responder ao que nos acontece. Quando falamos de psicossomática, falamos de trauma: uma experiência vivida e sentida como uma desilusão profunda e precocíssima; uma desorganização psicofisiológica, uma queda livre, uma ferida — algum tipo de ferida precoce no psiquismo da criança que a conduz a um estado de desamparo, perpetuado ao longo da vida.

Não se trata apenas de algo mental que se manifesta no corpo. Falamos, antes, de zonas de agravitacionalidade interna, lugares onde existiu desamparo e onde o trauma emerge.

Neste sentido, podemos pensar que tudo é psicossomático, porque tudo está inscrito numa dinâmica relacional. Isto remete-nos para a importância das relações nas regulações psicofisiológicas e para a forma como estas nos conduzem a mais ou menos saúde.

As doenças psicossomáticas são desregulações, descargas de circuitos psicoimunoendocrinológicos adoecidos. Não existe omnipotência fisiológica, mental ou relacional — existe um todo integrado. Podemos viver múltiplas situações traumáticas ao longo da vida, e não apenas na infância precoce, que nos conduzem ao adoecimento psicossomático. No momento traumático, recorremos frequentemente à dissociação inconsciente como forma de sobrevivência.

Esta reflexão leva-nos então a uma pergunta: o que fazer para regular estes adoecimentos somáticos?

O mergulho onírico no mundo interno poderá permitir-nos procurar recantos mais saudáveis, lugares de vínculos mais fortes. Perante a angústia, talvez seja possível encontrar dentro de nós espaços de maior segurança, reconhecendo a importância da relação, pois o adoecimento somático não é responsabilidade nem fragilidade do sujeito.

A autorregulação também depende da relação com o outro, porque não somos independentes desse olhar. Podemos então dizer que, quando o sintoma ou a doença são contidos e reconhecidos, o psicossoma reencontra-se e torna-se conhecível.

Atualmente, vivemos em atmosferas que nos podem adoecer, tão despidas estão de acolhimento humano. Vivemos tempos de profunda desumanização e, por isso, torna-se essencial pensar a realidade na sua complexidade, camada após camada de interação — reduzi-la à linearidade é adoecer.

Coloquemos então estas vulnerabilidades no lugar da coragem. Tornemos os decibéis da bondade mais audíveis!

“Pelo sonho é que vamos”, já dizia Sebastião da Gama. Talvez os sonhos possam habitar e aquecer aquilo que, dentro de nós, permanece frio, cru e doente.

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