Entre a casa e o mundo

Separação-individuação tardia, vulnerabilidade narcísica e o trabalho psíquico da entrada na vida adulta

A entrada na vida adulta constitui um dos momentos mais significativos da trajetória psicológica do indivíduo. A mudança de contexto — frequentemente associada à universidade, à mobilidade geográfica ou à conquista de maior autonomia — não representa apenas uma transição social. A clínica contemporânea com jovens adultos revela de forma consistente que a entrada na universidade ou no mundo pós-escolar pode funcionar como um verdadeiro acontecimento psíquico, no sentido em que reativa conflitos estruturais ligados à diferenciação do self e à renegociação das relações internas com as figuras parentais.

 Esta fase mobiliza frequentemente tensões entre autonomia e pertença, desejo e lealdade, individuação e necessidade de reconhecimento. Sintomas como ansiedade intensa, bloqueio cognitivo, procrastinação persistente, crises identitárias ou estados depressivos aparentemente inexplicáveis surgem frequentemente neste período, não necessariamente como indicadores de psicopatologia estruturada, mas como manifestações de um processo psíquico em curso. Trata-se de uma reorganização profunda da economia psíquica do sujeito — um processo que convoca simultaneamente questões de separação, luto, identidade e narcisismo.

Separação-individuação além da infância

A entrada na vida adulta pode ser compreendida como uma segunda grande fase de individuação, em que o sujeito é novamente convocado a diferenciar-se das figuras parentais e das posições emocionais que ocupava dentro do sistema familiar.

Durante anos, a identidade do jovem foi parcialmente estruturada em torno de papéis relativamente estáveis: o filho responsável, a filha exemplar, o orgulho da família, ou por vezes aquele que encarna preocupações ou expectativas. Ao deslocar-se para fora desse contexto relacional, o sujeito pode experimentar uma perda temporária de referências identitárias.

Margaret Mahler descreveu o processo de separação-individuação como uma tarefa central do desenvolvimento infantil. Contudo, a clínica posterior demonstrou que este processo não se encerra na infância. Pelo contrário, ele reaparece em diferentes momentos do ciclo vital sempre que o sujeito é convocado a redefinir a sua posição em relação às figuras de apego.

A transição para a vida adulta constitui uma dessas reedições.

Deixar a casa familiar implica mais do que uma mudança logística ou geográfica. Implica uma reorganização simbólica do lugar que o sujeito ocupa dentro do seu sistema relacional interno.

Neste contexto, o sujeito confronta-se frequentemente com uma pergunta implícita:
quem sou eu fora das relações que me definiram até aqui?

 Esta pergunta raramente emerge de forma explícita. Em vez disso, manifesta-se através de dificuldades aparentemente pragmáticas — incapacidade de estudar, desorganização emocional, crises de ansiedade ou sensação persistente de vazio.

Go to the Limits of Your Longing

Let everything happen to you:
beauty and terror.
Just keep going.
No feeling is final.

— Rainer Maria Rilke

Conflito de lealdade

Para alguns jovens adultos, o movimento em direção à autonomia pode também ativar uma forma particular de culpa inconsciente. Crescer pode ser vivido, em determinados contextos familiares, como uma espécie de abandono simbólico das figuras parentais.

Este fenómeno tem sido descrito na literatura psicodinâmica como lealdade inconsciente, na medida em que o sujeito permanece ligado a determinadas configurações relacionais internas mesmo quando, externamente, tenta construir uma vida autónoma.

A clínica sugere que, nestes casos, certos sintomas podem funcionar como formas indiretas de preservar a ligação ao sistema familiar. O fracasso académico, a auto-sabotagem ou a dificuldade em assumir plenamente a própria autonomia podem, paradoxalmente, manter o sujeito ligado a uma posição emocional anterior.

É o caso de alguns dos jovens que acompanho. Recordo, por exemplo, uma estudante de 19 anos que procurou psicoterapia no início do primeiro semestre universitário. Sempre fora considerada uma excelente aluna e descrevia-se como “organizada e responsável”. No entanto, desde que iniciara o curso, sentia-se incapaz de estudar. Relatava um fenómeno curioso: passava horas sentada diante dos livros sem conseguir iniciar a leitura. Sempre que tentava, surgia uma ansiedade intensa acompanhada por pensamentos intrusivos de fracasso.

Durante as primeiras sessões, emergiu gradualmente um elemento central da sua história familiar: a forte ligação com a mãe, que frequentemente a descrevera como “a minha maior alegria”. A possibilidade de construir uma vida autónoma parecia acompanhada por uma ansiedade difusa e por uma sensação de estar a abandonar alguém.

Neste contexto, o bloqueio académico começou a ser compreendido não apenas como dificuldade adaptativa, mas como expressão de um conflito mais profundo entre autonomia e lealdade.

Narcisismo e vulnerabilidade do self

A teoria do self de Heinz Kohut oferece um enquadramento particularmente útil para compreender as dificuldades que emergem neste período. Segundo Kohut, o desenvolvimento saudável do self depende da internalização gradual de funções reguladoras originalmente desempenhadas por figuras de apego que funcionam como selfobjects — espelhos que validam, regulam e sustentam a coesão do self.

Durante a infância e adolescência, o reconhecimento parental e escolar pode desempenhar um papel importante nesta regulação. Muitos estudantes que chegam à universidade construíram uma identidade fortemente ancorada no desempenho académico.Quando entram num ambiente altamente competitivo, onde o reconhecimento já não é garantido, a estrutura narcísica pode tornar-se vulnerável.

Neste contexto, emoções como vergonha intensa, sentimento de fraude ou medo de exposição tornam-se particularmente frequentes. O fenómeno culturalmente conhecido como impostor syndrome pode ser compreendido, numa leitura kohutiana, como a expressão de uma coesão do self ainda dependente de espelhamento externo.

O falso self e a crise de autenticidade

Donald Winnicott acrescentou uma dimensão essencial à compreensão deste fenómeno ao introduzir o conceito de Falso Self. Segundo Winnicott, quando a criança cresce num ambiente que privilegia excessivamente a adaptação às expectativas externas, pode desenvolver uma organização psíquica baseada na conformidade e não na espontaneidade.

O Falso Self permite ao sujeito funcionar eficazmente no mundo, mas pode fazê-lo à custa de um enfraquecimento do contacto com o núcleo espontâneo do self.

A entrada na vida adulta frequentemente confronta o sujeito com exigências que o Falso Self não consegue sustentar indefinidamente: a experiência de viver a partir do próprio desejo. O estudante que sempre foi exemplar pode começar a experimentar um tipo de exaustão existencial difícil de explicar: um sentimento de vazio, desmotivação ou desconexão que não corresponde necessariamente a um défice de capacidade.

Numa sessão particularmente significativa com um paciente universitário da área da Engenharia, experienciei este cenário a partir das palavras e sentires de P.

 Num jantar com colegas da residência universitária, alguém lhe pergunta o que realmente gosta de fazer. Não que curso escolheu, não quais são os seus objetivos — apenas o que gosta.

P. conta:

Fiquei bloqueado. Não sabia o que responder.

Sorri ao lembrar-se, mas o sorriso rapidamente se dissolve.

Percebi que nunca pensei nisso.

Esse momento condensa algo essencial do seu conflito interno. A separação da família não é apenas geográfica; é também psíquica. Pela primeira vez, surge a possibilidade — e simultaneamente o risco — de descobrir um self que não está totalmente organizado em torno das expectativas parentais.

Contudo, essa descoberta não é vivida inicialmente como libertadora. Pelo contrário, pode ser profundamente angustiante. Quando o falso self se torna demasiado rígido, qualquer contacto com o self mais autêntico pode ser experimentado como desorientação ou vazio. Como se faltasse um guião interno.

Num determinado momento do processo terapêutico, P. formula algo que ilustra bem essa transição:

Sinto que passei a vida a aprender a ser alguém… mas agora não sei quem sou quando ninguém está a olhar.

Gradualmente, pequenas mudanças surgem.

P. começa a experimentar escolhas que não estão totalmente alinhadas com aquilo que acredita que os pais esperariam: junta-se a um grupo de fotografia da universidade, falta a uma atividade académica para ir caminhar com colegas, permite-se admitir que talvez não queira seguir exatamente o percurso profissional imaginado pela família. Cada uma dessas experiências é acompanhada por ansiedade — mas também por uma sensação discreta de vitalidade.

A entrada na universidade, frequentemente celebrada como um símbolo de autonomia, revela assim uma dimensão menos visível: pode tornar-se o primeiro cenário onde a pessoa confronta a diferença entre quem aprendeu a ser e quem começa, finalmente, a descobrir que é.

E por vezes, esse encontro começa com uma pergunta aparentemente simples:

Se ninguém estivesse à espera de nada de mim… quem eu seria?

 

A mente sob pressão emocional

Quando a ansiedade ultrapassa a capacidade de contenção do aparelho psíquico, este processo pode falhar. O resultado é frequentemente descrito pelos estudantes como um “apagão mental”: dificuldade em concentrar-se, incapacidade de iniciar tarefas ou sensação de bloqueio cognitivo.

A teoria de Wilfred Bion oferece uma chave particularmente útil para compreender o bloqueio cognitivo frequentemente observado em estudantes universitários. Segundo Bion, o pensamento depende da capacidade do aparelho psíquico de transformar experiências emocionais brutas em elementos simbolizáveis — processo que ele denominou função alfa.

Quando a ansiedade ultrapassa a capacidade de contenção psíquica, esta função pode falhar. O resultado é um fenómeno clínico relativamente comum: o estudante lê mas não compreende, estuda mas não retém, tenta iniciar uma tarefa mas entra em pânico.

Este estado não corresponde a falta de inteligência ou motivação. Trata-se antes de um colapso temporário da capacidade de pensar sob pressão emocional.

O luto pelas identidades possíveis

Entrar na vida adulta implica também um trabalho psíquico de luto. A adolescência permite manter múltiplas identidades possíveis em aberto. O início da vida adulta exige escolhas que inevitavelmente implicam renúncias.

Escolher um caminho significa abandonar outros.

Este processo confronta o sujeito com a finitude das possibilidades, um tema frequentemente explorado pela literatura. O poeta T. S. Eliot captou esta dimensão existencial ao escrever que medimos a vida através de pequenos gestos quotidianos — uma imagem que exprime a passagem da fantasia ilimitada da juventude para a realidade concreta da existência adulta.

O jovem encontra-se, então, entre a casa e o mundo. Esse lento processo através do qual o sujeito começa a tornar-se, gradualmente autor da própria vida.

Para simbolizar esta travessia entre dependência e individuação, um excerto do poema “The Journey” de Mary Oliver:

One day you finally knew
what you had to do, and began,
though the voices around you
kept shouting their bad advice.

But little by little,
as you left their voices behind,
the stars began to burn
through the sheets of clouds.

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