A Arte do Sofrimento

(…) há entre o que em nós é só espírito e o que em nós é espírito do corpo uma relação de convívio em que podem surgir discussões (…)

 Bernardo Soares

 

É um fardo, uma dor incapacitante, física ou mental, um incómodo social, uma pedra no sapato da humanidade. O sofrimento é o pai dos afetos padrastos. Um encargo inaceitável. Sujeito a exigentes pedidos do exterior e expectativas de adequação social a uma normal frágil, um contexto
humano de emoções quebradiças. Estamos, geralmente, num contexto humano que pensa não poder tolerar mais vulnerabilidades. Somos apressados a enxotar o sofrimento: com otimismo (provavelmente falso), ginásio, consumo ou Fluoxetina.

Na mesmo senda, num exercício de alheamento catatónico,  ligamo-nos hoje ao universal tecnológico para terminar com o sofrimento em troca de pequenas gratificações instantâneas que se alimentam da nossa ilusão do conforto infindável e eterno. 

Mas a relação dos humanos com o sentimento sofrido é também contraditória.
Fugimos da dor física, mas também nos sujeitamos amiúde a ela de forma voluntária, em intervenções estéticas, parto, parentalidade e até no amor.
 

Apesar de existir uma consideração geral de que a dor e o sofrimento são reflexo do que em nós há de “desumano”, torpe, algo a ser repelido, neutralizado ou eliminado, em decisões e movimentos
ponderados e planeados, o nosso livre arbítrio leva-nos frequentemente a procurar esse fenómeno, como se nele, ou através dele, pudéssemos alcançar um tesouro escondido, um troféu apenas digno daqueles capazes de ultrapassar limites normalmente considerados danosos.

Como tudo o que odiamos, a dor tem em si também um enigma, uma intensidade não dominável, representante, talvez, do limite que separa o universo observável do universo não observável. Algo com o potencial de nos conceder passagem para uma expansão do ser, um novo poder de existência. 

No entanto, sofrer requer mestria e talento numa execução que tem de ultrapassar a técnica.

Com o sofrimento acontece uma paralisia do aparelho mental, uma reação natural à perda de energia em excesso, que liberta com ela os componentes psíquicos aos quais estava ou estaria vinculada. Trata-se de um efeito colateral da natureza entrópica do funcionamento psíquico, ou ruptura da integração corpo-ego. 

Mas estes nódulos reatores de entropia são também traumas e resistências, que agem como referências, e “mapeiam” o caos afetivo. Esta dispersão (ainda) sem sentido, que põe a nu alguma dissociação temporária é algo no qual devemos trabalhar, segundo Bion, para desenvolver a nossa capacidade de tolerância e contenção para avançar no caminho de expansão do conhecimento e de verdade subjetiva. Os dois caminhos possíveis do sofrimento seriam: conseguir permanecer temporariamente em sofrimento, ser contentor do que lá há dentro e poder elaborar, digerir e expurgar as emoções dolorosas ou, em alternativa, negar e destilá-las em dor mental.

 

Podemos tentar superar o sofrimento mostrando resiliência contra ele. Tratando-o como uma falha a apagar, uma curva no caminho errado. Portanto podemos fazer marcha atrás para um sítio anterior, a partir do qual não voltaremos a sentir o mesmo. Ou podemos entender o sofrimento como algo que nos ensina sobre nós próprios. Não sobre a forma como nos precisamos proteger, mas sobre os nossos desejos e medos inconscientes. As fantasias que animam as nossas escolhas irrefletidas.

 Um cérice interno, como mensageiro entre gregos e persas, que nos traz a mensagem sobre o que nós origina o conflito. 

Agir sobre o sofrimento implica entender, primeiro, que a dor física e mental, o desconforto e a saudade são partes inevitáveis da vida humana. E que a dor pode ser enorme, mas apropriada e transformadora. Existe sempre uma segunda seta que nos ultrapassa, causando um segundo momento de dor, o Bagavadguitá chama-lhe a seta infligida pela nossa própria mente. O resíduo do fenómeno inicial. O fator de surpresa que causa o momento do trauma.

Não se trata tanto de compreender se é preciso sofrer para viver, mas de fantasiar (primeiro) a possibilidade de existir uma “visão falsa” da realidade para a qual possamos crescer e humildemente arrostar, o que levamos dentro, sem resistência 

Com o acesso aos aspectos dispersos, à energia perdida, e com um terceiro, analítico ou não (Ogden, 1994), como elemento sintrópico, podemos então derreter o nódulo primal e avançar no caminho da maturação e simbolização.

Só consertamos verdadeiramente o sofrimento, com igual sofrimento. Isto é, com uma capacidade elaborativa que resista e que seja igualmente desagregadora; uma coragem de arriscar sofrer.

Se o estado de dor se tornar suficientemente representável, podemos então apropriar-nos da experiência afetiva e empreender uma outra com a habilidade transformativa da mente. 

O sofrimento seria como uma arte; uma força que podemos domar, um catalista capaz de nos aferroar para uma tremenda abertura criativa, resiliência e excelência subjectiva, o super-homem de Nietzsche.

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