Pensarmos na vergonha com profundidade, do não pensado que existe no nosso mundo interno, tomamos o convite que Tracy Chapman nos faz, através de Telling Stories, a refletir sobre as histórias que contamos e sobre a forma como misturamos realidade e ficção para dar sentido à vida. Não contamos apenas aquilo que aconteceu. Contamos também aquilo que conseguimos suportar sobre o que aconteceu, aquilo que precisamos de acreditar e aquilo que receamos que os outros descubram, protegendo-nos do rasgar da fragilidade/vulnerabilidade que tanto tememos experienciar.
Até as nossas memórias e partilhas pessoais podem conter elementos de ficção, não necessariamente porque queiramos enganar, mas porque precisamos de construir uma narrativa que nos permita continuar a existir na relação connosco próprios e com os outros. Há experiências que permanecem difíceis de nomear, partes de nós que não são pensadas e que não encontram lugar na história que contamos sobre quem somos. E, por vezes, é precisamente aí que a vergonha começa a rasgar-nos.
“Sometimes a lie is the best thing” faz-nos pensar em esconder (colocar na clandestinidade) como possibilidade de proteção contra a deceção do outro, da rejeição e/ou a perda do amor. Como se fosse preferível sermos nós próprios a desiludir-nos, a corrermos o risco de dececionar os outros. Como se pudéssemos antecipar a ferida, controlando a narrativa, antes que alguém a pudesse transformar numa sentença sobre nós.
Mas o que procuramos verdadeiramente proteger, quando escondemos alguma coisa?
Talvez não seja apenas um segredo. Talvez seja a possibilidade de continuarmos a ser vistos da mesma maneira. A possibilidade do outro não descobrir aquilo que tememos que confirme a nossa indignidade. Porque há uma diferença entre recear que alguém condene o que fizemos, e recear que alguém descubra que somos, afinal, aquilo que mais tememos ser.
A vergonha pode instalar-se precisamente nesta passagem: do reconhecimento de algo que fizemos ou sentimos, para a convicção de que há algo de errado em nós. Não se limita à avaliação de um comportamento. Pode atingir o próprio sentimento de identidade, como se uma parte da pessoa deixasse de ser admissível, digna de amor ou merecedora de pertença.
É viver um desmentido contínuo, é viver na clandestinidade – não poder dizer, não mostrar, guardar em silêncio. Esta é uma das experiências mais dolorosas: não sentir apenas que fizemos alguma coisa errada, mas que somos, nós próprios, um erro.
O olhar do outro
O olhar do outro pode tornar-se demasiado para suportar. A exposição daquilo que sentimos que deveria permanecer guardado e escondido, transforma-se numa ameaça. Que olhar poderá ver em nós, aquilo que já vemos, nos nossos piores pesadelos sobre nós próprios?
Talvez um olhar que, de alguma forma, já tenhamos encontrado, mesmo que não o reconheçamos conscientemente. Um olhar de humilhação, de repulsa ou de indiferença perante a nossa vulnerabilidade. Ou, ainda, um olhar que não tenha sido necessariamente cruel, mas cuja ausência de reconhecimento tenha sido vivida como abandono, nas fases mais precoces do nosso desenvolvimento.
Somos seres relacionais. Construímos parte da experiência de quem somos através das relações em que somos reconhecidos, acolhidos, nomeados e compreendidos. Isto não significa que a nossa identidade dependa inteiramente do olhar alheio, mas que a relação participa na forma como aprendemos a sentir-nos existentes, dignos e pertencentes.
Quando o olhar do outro é vivido como ameaçador, podemos deixar de nos sentir sujeitos de uma relação, para passarmos a sentir-nos objetos de observação. Já não estamos simplesmente com alguém: estamos expostos diante de alguém que poderá descobrir, avaliar e condenar aquilo que nós próprios não conseguimos aceitar.
Queremos ser vistos, porque precisamos de reconhecimento. Mas receamos ser vistos, porque antecipamos a rejeição. Escondemo-nos para preservar o vínculo e, ao mesmo tempo, podemos impedir que esse vínculo nos revele a possibilidade de sermos conhecidos, sem sermos rejeitados.
A vergonha produz, assim, uma solidão particular: não necessariamente a ausência de pessoas, mas a impossibilidade sentida de estarmos inteiramente presentes na relação. Podemos estar acompanhados e, ainda assim, viver na clandestinidade de nós próprios.
A vergonha que se aprende na relação
Quando pensamos nas experiências precoces, importa considerar que dependemos do cuidador para a regulação dos estados afetivos, para a proteção e para a construção progressiva de uma experiência de segurança. É através das interações repetidas que se vão organizando expectativas acerca de si, dos outros e das relações.
Quando o cuidador responde à vulnerabilidade da criança com humilhação, rejeição, desprezo ou repulsa, essa experiência pode comprometer o sentimento de segurança e a forma como a criança aprende a relacionar-se consigo própria. Se o corpo, as necessidades ou as expressões emocionais da criança são recebidos como algo repugnante, excessivo ou indigno, poderá tornar-se difícil distinguir entre a experiência de ser rejeitada e a convicção de ser rejeitável. Surge a zona traumática, que revela a perda de identidade e perda psicofisiológica, surgindo a expressão somática da doença.
A criança não dispõe necessariamente de recursos para pensar: «O outro está a tratar-me de uma forma injusta». Pode, antes, experienciar a relação como se houvesse algo em si que provocasse aquela resposta.
Não se trata de estabelecer uma causalidade linear entre uma experiência precoce e a vergonha vivida na idade adulta. As trajetórias individuais são diversas, e as relações posteriores podem constituir importantes experiências de proteção e transformação. Trata-se, antes, de reconhecer que a vergonha pode adquirir uma dimensão relacional profunda, quando o olhar que nos deveria ajudar a construir segurança, se torna um olhar perante o qual precisamos de nos esconder.
E se aquilo que sentimos como vergonha de nós próprios tiver sido, em parte, aprendido na relação? Se tivermos interiorizado um olhar que nos diminuiu e passado a reproduzi-lo dentro de nós, mesmo quando já não estamos diante de quem primeiro nos fez sentir assim?
Talvez a vergonha se torne especialmente dolorosa quando deixa de precisar da presença daquele que humilha. O olhar exterior transforma-se em vigilância interior. Já não é necessário que alguém nos diga que somos inadequados: passamos a antecipar essa condenação, a corrigir-nos antes de sermos corrigidos, a esconder-nos antes de sermos expostos.
A clandestinidade de nós próprios
Também Sérgio Godinho, no seu livro “O Pequeno Livro dos Medos”, nos aproxima da expressão «morrer de vergonha»: não dizer, guardar dentro, permanecer em silêncio, remetendo para esse lugar escuro e clandestino, sem esperança, aquilo que não conseguimos mostrar.
Há uma clandestinidade que não consiste apenas em esconder alguma coisa dos outros. Consiste em viver como se determinadas partes de nós não tivessem autorização para existir na relação. Necessidades que não podem ser reconhecidas, emoções que precisam de ser disfarçadas, desejos que parecem incompatíveis com a imagem que acreditamos ter de preservar.
«Se eu acredito que, se tu souberes esta parte de mim, nunca mais voltarás a olhar-me da mesma forma, e se passares a olhar-me apenas à luz do meu segredo — aquele que me fizeram acreditar ser feio —, então não sei se conseguirei suportar que saibas.»
O medo não reside apenas na revelação do segredo. Reside na possibilidade de deixarmos de ser vistos na nossa totalidade e passarmos a ser reduzidos àquilo que escondemos. Como se uma parte da nossa história pudesse apagar todas as outras; como se o conhecimento de uma fragilidade anulasse a possibilidade de sermos reconhecidos na nossa complexidade.
A vergonha pode, então, transformar-se numa espécie de vigilância permanente. Selecionamos palavras, escondemos necessidades, antecipamos reações e tentamos controlar a forma como somos percebidos. Não gerimos apenas o que fazemos: gerimos o que permitimos que seja conhecido sobre nós.
Esta vigilância procura proteger-nos de uma rejeição antecipada. Contudo, pode também perpetuar a convicção de que somos rejeitáveis, porque impede que descubramos o que aconteceria se pudéssemos mostrar-nos de outra maneira.
Os termos «science fiction» e «the scary monster», presentes na música de Tracy Chapman, permitem-nos ainda pensar nas narrativas através das quais construímos a realidade. A história que contamos sobre nós pode tornar-se uma prisão. Aquilo que imaginamos sobre o olhar do outro, nem sempre corresponde ao que o outro pensa, mas pode tornar-se tão convincente, que passamos a viver como se essa interpretação fosse uma certeza.
O corpo que denuncia e o corpo que se protege
A vergonha não é apenas na mente, existe igualmente no soma, manifestando-se na postura, no desvio do olhar, no rubor, na alteração da voz, no bloqueio das palavras ou na pele. O corpo participa na experiência de exposição e ameaça social.
Há quem, tomado pela vergonha, experimente aquilo a que Tânia Carneiro descreve em “O Monstro da Vergonha”: «um monstro que me leva as palavras, rouba-me os pensamentos e a minha cabeça fica vazia».
As palavras desaparecem. O pensamento parece suspender-se. A pessoa pode saber que está a sentir alguma coisa, sem conseguir nomear o que lhe acontece. O corpo responde, antes da experiência poder ser inteiramente pensada ou comunicada.
Por vezes, surge o rubor, associado à dilatação dos vasos sanguíneos da pele. A pessoa sente que está a ser denunciada pelo próprio corpo: quanto mais deseja não ser vista, mais sente que se tornou visível (seu desejo último). A resposta fisiológica, que não escolheu nem consegue controlar voluntariamente, transforma-se numa fonte de exposição.
Talvez possamos imaginar, nesse rubor involuntário, uma réstia de esperança de sermos encontrados e compreendidos. Não como explicação fisiológica do rubor, mas como imagem da ambivalência que atravessa a vergonha: queremos esconder-nos e, simultaneamente, desejamos que alguém consiga ver-nos para além dela.
Noutros momentos, podem surgir a palidez, o retraimento ou a vontade de desaparecer. O corpo responde de diferentes formas perante situações percebidas como ameaçadoras. A experiência subjetiva pode ser a de querer deixar de estar ali, de escapar ao olhar do outro, de interromper a exposição antes que ela se transforme numa queda sem suporte.
Importa compreender como cada pessoa vive o seu corpo naquele momento: como aliado, como obstáculo, como testemunha involuntária ou como lugar onde se torna visível aquilo que gostaria de manter escondido.
As emoções podem interagir com processos fisiológicos e influenciar determinadas condições de saúde, o corpo não deve ser interpretado como um código que permite deduzir automaticamente uma história emocional.
Talvez a pergunta mais fecunda seja outra: o que acontece quando aquilo que sentimos como inaceitável em nós, passa a ser vivido como algo que o próprio corpo pode revelar?
A vergonha e a descontinuidade
Vale a pena pensar na vergonha também como uma experiência de descontinuidade. Algo interrompe o sentimento de ligação a nós próprios e aos outros. Aquilo que sentimos, deixa de parecer compatível com aquilo que acreditamos poder mostrar. A pessoa pode sentir-se dividida entre uma experiência interna e uma imagem exterior que procura preservar.
Esta descontinuidade não significa necessariamente uma perda literal da identidade. Pode corresponder à experiência subjetiva de deixar de se reconhecer como alguém inteiro, como se a parte que precisa de esconder ameaçasse destruir todas as outras.
A vergonha pode estreitar a perceção que temos de nós próprios. Um erro torna-se uma definição; uma fragilidade transforma-se numa identidade; um segredo passa a organizar a relação com os outros. Deixamos de pensar «há algo em mim que não quero mostrar» e começamos a viver como se «aquilo que me assusta mostrar fosse tudo o que sou».
É aqui que a diferença entre culpa e vergonha se torna relevante. A culpa pode centrar-se no reconhecimento de uma ação e na possibilidade de reparação. A vergonha pode atingir o sentimento global de valor pessoal, tornando mais difícil imaginar que algo possa ser reparado, sem que a própria pessoa tenha de ser condenada.
De quem é a vergonha?
Mas, afinal, de quem é a verdadeira vergonha?
Provavelmente de quem humilha, de quem inscreve no outro a vergonha que é sua, qual medo de olhar o próprio pânico de frente e aceitar a incerteza.
Há uma diferença entre ter sido tratado como alguém indigno e ser, de facto, indigno. Contudo, quando a vergonha se instala profundamente, essa diferença pode deixar de ser emocionalmente acessível. A pessoa pode compreender racionalmente que não teve culpa e continuar a sentir, no corpo e na relação consigo própria, que há algo de errado nela.
A questão é permitir que a pessoa deixe de carregar como verdade sobre si, aquilo que foi produzido numa relação de desvalorização.
O que aconteceria se conseguíssemos distinguir aquilo que nos pertence daquilo que nos foi atribuído? Se pudéssemos reconhecer as nossas falhas sem nos reduzirmos a elas, assumir a responsabilidade pelos nossos atos, sem transformar a nossa existência numa condenação, e revelar a nossa fragilidade, sem a confundir com indignidade?
Talvez seja neste ponto que a vergonha possa começar a ser elaborada: não quando desaparece por completo, mas quando deixa de determinar sozinha a forma como nos vemos, e como nos permitimos ser vistos. Sair do impensável para ser olhado e acolhido.
Um olhar onde seja possível existir
A relação terapêutica pode constituir um espaço privilegiado para esta elaboração. Não porque o psicoterapeuta ofereça um olhar idealizado, isento de limites ou de complexidade, mas porque pode ajudar a construir uma relação em que a experiência da vergonha seja reconhecida, pensada e compreendida, sem que a pessoa seja reduzida a ela.
A revelação nem sempre produz alívio imediato. Por vezes, consciencializar aquilo que foi mantido em segredo, intensifica inicialmente a exposição e o medo. É necessário respeitar a função protetora do silêncio, do acolhimento e da compreensão.
O trabalho clínico consiste em criar condições para que aquilo que foi escondido possa, progressivamente, tornar-se pensável. Para que a pessoa possa descobrir que reconhecer uma experiência não equivale a ser definida por ela, e que ser conhecida não implica necessariamente ser condenada.
Talvez o que transforma a relação com a vergonha não seja apenas a possibilidade de falar, mas a experiência de continuar a existir na relação, depois de ter falado.
Ser visto sem ser reduzido ao segredo. Ser reconhecido sem ser confundido com a própria fragilidade.
Voltando à música de Tracy Chapman, talvez o problema comece quando transformamos o amor num lugar de humilhação, e substituímos a possibilidade de encontro por uma verdade assética, aparentemente limpa, mas incapaz de acolher a complexidade humana.
Quando a vergonha toma conta do pensamento, a nossa visão pode estreitar-se. Passamos a acreditar que aquilo que escondemos é tudo o que somos e que a sua revelação destruirá necessariamente o vínculo com o outro.
Talvez seja precisamente aí que precisamos de interromper a narrativa. Não para substituir a verdade por outra ficção, nem para negar aquilo que aconteceu, mas para descobrir que a nossa história é sempre maior do que a parte escondida.
Talvez a vergonha que nos rasga seja, em parte, a dor de acreditar que não podemos ser inteiros diante de alguém.
E talvez a possibilidade de reparação comece quando descobrimos que podemos ser vistos para além daquilo que nos ensinaram a esconder; que a fragilidade não precisa de se transformar em indignidade; e que o amor, quando não humilha nem exige a negação de partes de nós, pode tornar-se um lugar onde voltamos a encontrar continuidade.
Não porque deixemos de ter segredos, medos ou contradições, mas porque já não precisamos de os transformar na prova de que não merecemos ser conhecidos.
Vera Ramos
Referências Bibliográficas
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– Gilbert, P., Pehl, J., & Allan, S. (1994). “The phenomenology of shame and guilt: An empirical investigation”. British Journal of Medical Psychology, 67, 23–36.
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