“Tudo o que fazemos em vida ecoa pela eternidade” (Marco Aurélio)

Debruçar atenção sobre esta afirmação incute-nos uma série de certezas, mas, em paralelo, uma série de indagações, indefinições e, até, um “sem número de impossibilidades” e valências inverosímeis, dadas as adjacências filosóficas, conceptuais e humanísticas que encerra!
 Inserindo-a no escopo dos infindáveis desdobramentos que a vida pode assumir e, em parceria, colocando-lhe algumas grelhas de leitura de essência Psicodinâmica, o alcance que se pode ter, acerca da sua veracidade e aplicabilidade e, sobretudo, no modo como determinados padrões relacionais e comportamentais se vai estruturando e perpetuando, acaba por ser inexcedível.

  Tomemos o exemplo da Violência – temática que, lamentavelmente, tem assumido protagonismo crescente nos nossos dias, em função da recorrência com que ela nos interpela – na abertura de noticiários televisivos, dando conta de situações flagrantemente calamitosas, como o caso da Guerra que, a pretexto de pretensiosismos insanos, tem ceifado milhares de vidas e tem aniquilado a paz a outras tantas pessoas; o caso de situações, do mais trivial, onde, jamais, se vislumbraria um cenário com contornos desse género; nos inúmeros exemplos de episódios de Bullying, com que nos vemos confrontados, quase que a um ritmo desconcertante, em contexto escolar, laboral e social, bem como ao abrigo de uma multiplicidade de situações (incomportável de enunciar neste pequeno trecho).

   Com efeito, chegados a este ponto, será sensata a colocação da seguinte equação e interrogação de síntese:

   – Quais os pontos de confluência entre a afirmação de Marco Aurélio, patenteada há centenas de anos, e estes fenómenos aduzidos, enquadrados na conjuntura global de violência?

  Pois bem, tentemos colocar algum enfoque analítico em torno da génese do fenómeno violento – enquanto exercício gratuito de maldade e, simultaneamente, consequência nefasta de um ciclo vicioso onde prevalece, irrevogavelmente, uma perpetração violenta precedente (de forma explícita, ou, de forma latente, insidiosa e, até, escamoteada).
 Para tal, é imperativo que não se perca de vista o facto de que, todos estes actos violentos, aqui em escrutínio, são cometidos por pessoas – todas elas com histórias, com determinados padrões e núcleos relacionais, com “infâncias”, com “adolescências”, passando por períodos do crescimento e desenvolvimento pejados de intercorrências menos felizes, mais felizes, caminhos mais sinuosos, traumáticos (com configurações de espectro variável) ou, por outro lado, vidas e histórias mais equilibradas e não tão distantes de percursos “normalizados” de desenvolvimento.
 Não obstante, ao abrigo de conjunturas deste género há, sempre, um mínimo denominador comum, quase como que algo absolutamente caracterial – alguma Falta de Amor, presente, algures, nalguma etapa de crescimento de cada um destes “agentes perpetradores”.

   Não colocando à margem a consideração de que o ser humano é eminentemente relacional e que, por inerência, desde que nasce, tem competências inatas para o apego e vinculação a outro (tomemos a Mãe como a figura de referência e de amor primordial), será nesta díade relacional primária (entre mãe e bebé) que poderá ser fundada, em jeito preliminar a experiências posteriores, quer a criação de segurança, autonomia e amor (que permanecerá, mais ou menos firme e robusto, no decurso da vida), quer o defraudar cumulativo desses mesmos apelos de apego, instaurando o dito “Desamor”. Nesta senda, esta Falta de Amor começa a alicerçar-se à medida que vai ganhando lugar a ocorrência de privações (afectivas, de bens essenciais, de mecanismos de regulação emocional, etc), actos de negligência, punições, humilhações de vária ordem e, até, de falta de respeito para com os próprios ritmos biológicos do bebé e/ou da criança em idade mais avançada, pelo que o resultado destes “horrores” experienciados será, inexoravelmente, o enquistamento da agressividade e a propensão aumentada para a emergência de condutas hostis, destrutivas e violentas.
Por conseguinte, consolida-se a abertura de vias para a criação e instalação de sentimentos de ódio que, se não forem encontrando “metabolização”, elaboração e reparação em relações adicionais (com outras figuras significativas – p.e, pai, avós, tios, ou outras pessoas sem quaisquer laços de consanguinidade), acabam por desvitalizar e mortificar os recursos saudáveis que o bebé/criança/adolescente possa ainda preservar.
Será de acordo com estes pressupostos que assumem alguma pertinência as observações populares de que “Comportamento gera comportamento” e “Na terra onde fores viver, faz como vires fazer!”. É, portanto, sob a égide dos traumatismos cumulativos e da tonalidade abandónica e mortificante que matiza este tipo de relações precoces – funcionando como uma espécie de esboço à criação de relações e vínculos futuros – que toda esta cascata de fenómenos se vai estruturando, consolidando e perdurando ao longo do tempo, de forma mais silenciosa e encriptada, ou, de forma mais exuberante e explícita. 

   Voltando às formas pelas quais a violência se vai expressando, seja em modo de ataques massivos, de que é exemplo a guerra que fustiga a pátria Ucraniana, seja o caso do Bullying, cujas evidências na sociedade são cada vez mais avassaladoras, cada uma destas vertentes mais não é do que um manifesto caso de “Falta de Amor”, donde emerge um conjunto de padrões destrutivos, de atitudes e comportamentos, como única via de expressão e “libertação do mal” que parasita quem, desta feita, está a retaliar e a vitimar terceiros, tal como, algures no passado (mais longínquo, ou menos remoto), foi vitimado, retaliado e mal-tratado.
   Assim, de forma inequívoca, “Tudo o que fazemos em vida ecoa pela eternidade”, na medida em que amamos, um ror de vezes, quase que na mesma medida com que fomos amados, do mesmo modo que tenderemos a dar um pouco da “nossa maldade”, de forma mais ou menos sistematizada, pela vida fora, consoante a forma como fomos ficando em desamparo, em angústia e em “desamor”.

   Parafraseando Coimbra de Matos (2012, p.383) – “Sem entrada de estima, só se produz
ódio. É o destino do desamado: a violência”.

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