“A esperança de haver alguém!…”

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            Num destes últimos dias tive a felicidade de conhecer e escutar uma canção (lindíssima!), cuja essência me fez reflectir, de uma forma ainda mais contundente, acerca da importância do “Outro, em Presença” na nossa vida, não só em termos de relacionamento interpessoal, (numa amplitude vasta de sentidos e contextos – profissional, de amizade, laços familiares, grupos de pares, etc), mas, fundamentalmente, a povoar o nosso espaço subjectivo, o denominado mundo interno – a alma, se assim lhe quisermos chamar!

            A canção em apreço, da autoria da banda Norte-Americana Antony and The Johnsons, de 2005, tem o maravilhoso título “Hope There’s Someone”, podendo tomar as traduções de “A esperança de haver alguém…”, ou, a “Esperança de que alguém exista…” – alude à necessidade suprema que o ser humano tem de se sentir acompanhado; amparado; protegido; reconfortado e sossegado, sobretudo, em horas de angústia e desamparo. A sumptuosa e comovente mensagem da canção, começando, logo, pelas palavras iniciais : “Hope there’s someone Who’ll Take Care of Me, When I Die…” – Espero que haja alguém que cuide de mim, quando eu morrer…, deixa a descoberto uma das maiores angústias, um dos medos mais, veementemente, perturbadores do ser humano – a solidão sentida perante a vivência de um sofrimento, especialmente quando a exuberância com que o mesmo se faz sentir é avassaladora. Porém, a esta altura, deverá estar a emergir, no pensamento de quem lê, uma espécie de inquietação, absolutamente pertinente, corporizada na interrogação: “Esperança de haver alguém que cuide de mim, quando eu morrer?!”, paralela ao surgimento de uma indagação do género: “Não seria desejável ter alguém que cuide, antes que se morra?”. O facto é que, em primeira instância, se poderá pressupor e antever uma certa incongruência e, até, alguma dose de insensatez, inerente a esta afirmação introdutória expressa na canção, sendo que, em bom rigor, o que haverá, mais não é do que um senso de complementaridade no âmago de ambas as questões aduzidas, na medida em que “se morre, um bocadinho”, muitas vezes, ao longo da vida – quando se é exposto a um sofrimento incomensurável – numa situação de abandono, por exemplo; em episódios de trauma (de vária ordem); na perda de alguém próximo, por morte; num processo de divórcio; no doloroso processo da vivência de um diagnóstico por doença ou acidente, etc. Neste sentido, de cada vez que não há alguém, perto de nós, que aplaque algumas das dores trazidas ou avivadas por intercorrências similares às enunciadas, os “bocadinhos que morrem”, bem como as consequências daí advenientes, podem assumir proporções descomunais.

            Assim, à guisa de conclusão decorrente destas constatações, tal como Antony and The Johnsons preconizaram, na sua magnífica canção, fará absoluto sentido a frase “Espero que haja alguém que cuide de mim, quando eu morrer”, da mesma forma que a Psicanálise e a Psicologia Clínica de linhagem Psicodinâmica são confluentes na argúcia de admitir que, na base da segurança, equilíbrio mental e força de carácter, indispensáveis ao fazer face a adversidades desse tipo, terá de haver um desenvolvimento psíquico saudável, ancorado, sempre, na existência de vínculos sadios e seguros, erguidos precocemente (entre um bebé e as suas principais figuras de referência e amor) sendo que, perpetuados pela vida, definirão a matriz basilar e a essência da pessoa. De acordo com este pressuposto, de “segurança básica”, mesmo na ausência efectiva de alguém (por múltiplas vicissitudes), não deixará de existir “essa presença”, “essa esperança de alguém estar ali” em jeito internalizado, de forma secreta, latente e indizível, cravada na memória, a organizar e a povoar o mundo interno, como que sendo uma “bússola” ou uma “estrela guia”, no desnorte da dor trazida por essas pequenas “mortes” que vão tendo lugar, em vida.  A consubstanciar esta ideia, Antony and The Johnsons, num outro trecho da canção, referem:  “Hope There’s someone Who’ll set my heart free, Nice to Hold, When I’m tired – “Espero que haja alguém que liberte/alivie o meu coração, que eu possa segurar/abraçar, quando eu estiver cansado” – invocando, subliminarmente, a necessidade inelutável de alívio e reparação, mediante sensações de dor e angústias de aniquilamento – o que me fez pensar, naturalmente, no poder de redenção, libertação e reparação providenciado em contexto de Psicoterapia, não perdendo de vista que aí haverá, decerto, a dita “Esperança de haver alguém!…”, (encontrada e construída na Relação Terapêutica), capaz de ajudar a (re)criar a “estrela guia” anteriormente mencionada, bem como a “segurança básica” indispensável ao enfrentar e ultrapassar, de várias dores, eventualmente, trazidas pela vida.

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