Valor sentimental

Um olhar sobre a cena…

Uma reflexão sobre o filme Valor Sentimental (Sentimental Value, 2025)

 

 Filme de Joachim Trier, vencedor do Grand Prix do Festival de Cannes, pede que o nosso olhar se detenha no espaço entre o gesto e a palavra. O enquadramento e o ritmo das cenas sustentam uma narrativa onde os silêncios nos levam a olhar para o que não se diz, revelando como a ausência e o reencontro podem transformar a dor num espaço de reflexão e descoberta interior.

A Casa ocupa um lugar central na narrativa, assumindo-se como uma metáfora da história familiar e do legado psíquico que atravessa gerações. Retratada por Nora numa redação escrita na infância, surge como um lugar onde emergem e se atualizam as memórias traumáticas e onde os espaços e objetos carregam o que ficou por dizer, o que não foi simbolizado. Os problemas estruturais que afetam as suas fundações podem ser entendidos como a representação da transmissão transgeracional do trauma: aquilo que não pôde ser dito ou elaborado reaparece noutra geração sob a forma de repetições, clivagem e impasses relacionais. A fragilidade da Casa remete, assim, para a fragilidade dos vínculos familiares e para o peso de uma herança emocional que se faz presente.

É neste cenário que Gustav, um realizador de cinema premiado, procura retomar a sua carreira através de um projeto profundamente marcado pela sua própria história familiar. O regresso à Casa de família constitui simultaneamente um retorno ao passado e uma tentativa de revisitar, reconstruir e, de certa forma, reencenar experiências que permaneceram por elaborar. Após anos de ausência, Gustav regressa com a intenção de oferecer a Nora, sua filha mais velha que seguiu a carreira de atriz, o papel principal no filme que pretende realizar. A linguagem cinematográfica, constituiu-se como um meio de resgatar a relação, convocando para o espaço da representação questões emocionais e relacionais que permanecem por resolver.

Numa das cenas iniciais, Nora debate-se com um episódio de pânico antes de entrar em palco, podendo constituir uma manifestação da angústia ligada aos seus conflitos internos e expressão do sofrimento psíquico. Assim, o palco surge como metáfora do mundo, um espaço onde se sente exposta e vulnerável, mas também um lugar para encenar, elaborar e dar forma à sua vida psíquica. O regresso de Gustav atualiza as feridas do abandono paterno na infância, os lutos, os traumas cumulativos que foram moldando as escolhas, as dinâmicas relacionais e afetivas de cada uma das filhas. 

Agnes, irmã de Nora, historiadora de formação, desempenha um papel relevante na articulação entre passado e presente.  O resgate da história familiar, permite aceder a um acontecimento traumático que marca profundamente a infância de Gustav, permitindo perceber que o filme pode constituir um espaço de reparação e reconciliação. Este novo olhar vai possibilitar a inscrição dos acontecimentos numa perspetiva transgeracional, começando a desenhar-se a possibilidade de elaboração psíquica do trauma, 

 A cena final retoma o início do filme: a câmara percorre novamente a Casa, enquanto se sobrepõem imagens dos espaços e das sucessivas transformações ao longo do tempo. A Casa emerge, assim, como um lugar simbólico, onde se entrelaçam relações, silêncios e memórias.

A narrativa parece conduzir à inevitabilidade da repetição do trauma familiar, mas a interrupção da cena rompe a lógica da repetição, revelando a “cena dentro da cena”. A casa é reconvertida num set de filmagem e a própria história familiar torna-se objeto de encenação e dramatização.

 

Ao transformar a experiência vivida em representação, abre-se espaço para a distância reflexiva, para a elaboração simbólica e para a emergência de novos sentidos. Nesta perspetiva, quando o passado pode ser nomeado e pensado, deixa de atuar apenas como repetição e abre espaço para novas formas de ligação consigo próprio e com os outros. A arte surge, assim, como possibilidade de transformação e ressignificação da história pessoal e familiar.

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