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O medo do sofrimento psíquico e da descompensação é um dos mais angustiantes enfrentados pelo sujeito ao longo da vida. Apresenta-se como um temor difuso, muitas vezes inominável, de perder o controle sobre si mesmo.
Pensando na profundidade e dimensão deste afeto ecoou no meu pensamento Emily Dickinson, “I Felt a funeral in my brain”: “Eu senti um funeral na minha cabeça, e os cérebros dentro de mim desciam e arrastavam-se, a dor de cada passo”.
Como viver assim? Como fazer para evitar a dor? Como fugir? Matam-se os pensamentos, e espera-se. Haverá velório? Saberemos despedir-nos da dor do sentir? Como nos assegurarmos de que a alma tem um caixão à prova de tudo? (É a dor na alma de Freud, “Seelenschmerz”). Não conseguimos. Cola-se o medo às costelas. Aguarda-se um desfecho e se aguardamos não criamos, não inventamos, foi-se-nos a possibilidade de sonhar. O psiquismo entra em falência.
Podemos ter muito medo de não conseguir “segurar” os pensamentos, que correm velozmente e se atropelam uns aos outros. Podemos sentir um pânico no corpo todo de se poder desfazer ou partir. Pode ouvir-se um grito surdo a dizer que estamos prestes a enlouquecer e a perder a ligação com o outro, com o mundo.
Onde ficamos? À espera que nos ensinem como acolher o desproporcional, o trágico e o paradoxal.
Na psicoterapia, essa angústia, esse terror, podem ser compreendidos como uma defesa psíquica contra a emergência de conteúdos inconscientes que ameaçam a coesão do ego. Desde Freud, compreendemos que o psiquismo humano se organiza a partir da tentativa de equilibrar pulsões, defesas e experiências emocionais. O medo da descompensação não é apenas um medo do sofrimento em si, mas a expressão de uma fantasia catastrófica: teme-se o colapso da organização psíquica, a dissolução da identidade, a incapacidade de dar conta da própria existência. É uma espécie de perigo que se sente de forma avassaladora, que não tem uma causa objetiva clara, mas manifesta-se como um terror de que forças psíquicas inconscientes possam tomar o controlo da vida do sujeito.
Lacan explica-nos que o sujeito é estruturado pela falta e pelo desejo, e que o real – aquilo que escapa à simbolização – é sempre uma ameaça latente. O medo da descompensação pode ser entendido, então, como um medo de ser confrontado com esse real sem os recursos simbólicos necessários para integrá-lo na experiência psíquica.
Mas temos perguntas a fazer. Temos questionamentos dentro de nós. Às vezes a voz que lhes subjaz está enfraquecida, mas existe e pode falar desta forma: como seria ousar olhar de frente o medo que nos quer engolir? Como seria abraçar essa angústia e aceitar que ela entre para que depois (há sempre esse depois) ela possa ser menos ameaçadora? Como seria? E se?
E se for (tem de ser) como nos diz Mário Quintana em “Ainda que Sofra”: “Ainda que sofra, que o mundo me cruze, sigo firme, porque a dor não me quebra, e, do sofrimento, crio forças que me fazem mais inteiro, mais meu”. Afinal, podemos ser mais nós mesmos. Eu sou eu. Sou meu e sou de mim. Avanço, mesmo com medo.
A capacidade do sujeito de sustentar a sua própria subjetividade depende das experiências precoces de acolhimento e de um ambiente suficientemente bom, como enfatizou Winnicott. Ter o sol dentro de si, dando tréguas às tempestades, porque aquece o espaço interno e torna-o casa e abrigo, porque ali se foi visto, reconhecido e amado. Uma criança pequena que teve o amor como companheiro inseparável, crescendo, reinventando-se e construindo – e desconstruindo quando é necessário, mas oferecendo baias de segurança para evitar traumatismos dos embates da vida – o adulto que hoje é.
Mas e se disto houver falta? E se no lugar do abrigo existe (existiu) um grande espaço vazio? Se a função materna falha em proporcionar continência emocional, o sujeito pode crescer com um sentimento crónico de vulnerabilidade psíquica, com um medo constante da sua própria desintegração.
Esse medo pode expressar-se de diversas formas na vida adulta. Pode surgir em momentos de crise, como perdas significativas, separações ou fracassos, vivências onde o ego se sente ameaçado e fragilizado. Pode também aparecer em quadros clínicos como transtornos de ansiedade, depressão ou estados dissociativos, nos quais o sujeito experimenta a sua subjetividade como algo precário e instável. Há ainda aqueles que tentam lidar com esse medo exercendo um hipercontrolo sobre a própria vida psíquica, tornando-se rígidos, perfeccionistas ou excessivamente racionais. Essa tentativa de negar a possibilidade de sofrimento psíquico, no entanto, pode levar a um estado de constante vigilância e exaustão emocional, intensificando a angústia ao invés de aliviá-la.
Contudo, a psicanálise, ensina-nos que não há como eliminar completamente o medo do sofrimento psíquico – ele faz parte da condição humana. A capacidade de continência e tolerância ao sofrimento constitui um dos pilares do desenvolvimento do indivíduo. Esta tolerância não significa resignação ou passividade, mas a possibilidade de transformá-la numa experiência integradora.
Na psicoterapia, o sujeito é convidado a nomear o seu medo, a dar-lhe uma forma, a compreender as suas origens e suas manifestações. Quando a angústia é acolhida e trabalhada, ela perde o seu caráter ameaçador e pode, paradoxalmente, tornar-se um motor de transformação psíquica. Esperança. Cultiva-se Esperança ali onde só existia um terreno fértil de medo.
“Hope” é a coisa com penas, Que pousa na alma, E canta a melodia sem palavras,
E nunca, nunca pára” (Emily Dickinson)
A travessia do medo do sofrimento psíquico não se dá através do evitamento, mas sim da disponibilidade para entrar em contacto com aquilo que se teme. É a disposição para olhar para dentro. Nesse sentido, a psicoterapia não procura eliminar a angústia, mas sim transformar a relação que o sujeito tem com ela.
Em vez de procurar alcançar um psiquismo completamente coeso e imune ao sofrimento (desde logo uma missão votada ao insucesso, porque somos seres incompletos), a psicoterapia propõe uma outra via: aceitar a incompletude, encontrar novos sentidos para a angústia e permitir-se viver a subjetividade na sua plenitude, com as suas incertezas, vulnerabilidades e potencialidades. Devemos pensar o sofrimento não como um inimigo a ser irradicado, mas como um sinal de que algo precisa de ser compreendido e reparado. Na psicoterapia encontramos um outro em condições de nos acompanhar nas nossas dores e nas necessárias elaborações. Dentro e fora do consultório o que foi compartilhado pode ser tolerado e transformável. Novas narrativas surgem e novos significados se atribuem. O medo do sofrimento e da descompensação ficam assim diminuídos nas suas forças destrutivas e dão lugar ao poder da superação.
“Atravessa a tua noite e sê a tua estrela. É na sombra mais densa que brilha a centelha. O medo é um véu, mas tu és luz inteira.” — Sophia de Mello Breyner Andresen