Conexão Social

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A OMS cria uma Comissão Internacional para a Conexão Social

A solidão pode afetar pessoas em qualquer faixa etária e a qualquer momento do ciclo vital. Estar sozinho, isolado ou viver só, aumenta em 30% o risco de morte precoce. Este é o resultado de um estudo norte-americano feito por Julianne Holt-Lunstad, psicóloga, que conclui que a solidão e o isolamento social suscitam respostas fisiológicas associadas a doenças cardíacas, depressão ou risco de morte prematura[i]. Os maiores problemas surgem para a solidão crónica, mas este não é um problema só dos mais velhos. Um estudo recente do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA) mostra que os jovens portugueses que mais consomem redes sociais são os que se sentem mais sozinhos[ii]. Mas o sentimento de solidão mantém-se mesmo quando não interfere com a sua convivência social fora da esfera da internet. A hipótese dos investigadores é que é a própria internet que provoca os sentimentos de solidão, pela pobreza da comunicação que é estabelecida, estando ausente o cheiro, o toque e muitas vezes a visão. O contacto sensorial, sobretudo aquele que é feito através do tato, liberta oxitocina, comummente conhecida como a hormona do amor.

Em contexto clínico, tenho-me apercebido do impacto da solidão. Nos mais jovens, o jogo online tornou-se um hábito. Permite-lhes conciliar uma atividade lúdica com uma forma de interação social, mais confortável e cómoda do que combinar uma saída com os amigos. Dizem-me que estes momentos se transformaram numa rotina diária, que se estende por várias horas. Sentem culpa e não sabem bem como lidar com a questão. Vários dados no mundo hoje apontam para que os jovens têm menos amigos, são mais desconfiados e alienados da sua comunidade do que nunca. Basta pensar que através de um clique é possível eliminar um amigo, mas na vida real se existem conflitos a sua resolução é mais complexa, apelando a diversas competências sociais, emocionais e intelectuais. Muito se fala da regulamentação das redes sociais, que seria útil, mas penso que também é importante os pais estarem atentos a si mesmos, numa reflexão sobre os seus próprios consumos online. Segundo um estudo do Reino Unido, a mera presença de um smartphone em cima da mesa, mesmo que desligado, inibe o desenvolvimento da proximidade interpessoal [iii].

Nas faixas séniores, a solidão aparece muito associada ao processo de envelhecimento e à natural diminuição da rede familiar, profissional e social. Falamos de transformações biopsicossociais que não são fáceis de aceitar, mas que é possível integrar num novo contexto de vida, com a vantagem da experiência acumulada e do tempo, que abundam aqui, para explorar novas reflexões, interesses e ocupações, como os hobbies artísticos ou o voluntariado.

A solidão aumenta em 50% o risco de demência, segundo a OMS, matando mais que o tabaco, o que levou a organização a declarar este problema como “preocupação global de saúde pública”, tendo criado uma comissão internacional para a conexão social[iv]. Penso que é importante não só os psicólogos, mas também outros profissionais da área da saúde, educação e inserção social refletirem sobre este fenómeno, que é complexo. Uma vez que estas mudanças sociais estão a ter impacto no bem-estar e saúde mental das populações.


[i] Holt-Lunstad J., Smith T. B., Baker M., Harris T., Stephenson D. (2015). Loneliness and social isolation as risk factors for mortality: a meta-analytic review. Perspectives on Psychological Science, 10(2), 227-37. doi: 10.1177/1745691614568352. PMID: 25910392

[ii] Costa, R. M., Pimenta. F., Ferreira-Valente, A. (Abril de 2023). A solidão e as redes sociais: por que nos sentimos tão sós nos locais do mundo mais apinhados de gente? Centro de Investigação William James, ISPA – Instituto Universitário, Lisboa. Retirado a 18 de novembro de 2023 de: https://oobservatoriosocial.fundacaolacaixa.pt/-/a-solidao-e-as-redes-sociais-por-que-nos-sentimos-tao-sos-nos-locais-do-mundo-mais-apinhados-de-gente#

[iii] Przybylski, A. K. & Weinstein, N. (2013). Can you connect with me now? How the presence of mobile communication technology influences face-to-face conversation quality. Journal of Social and Personal Relationships, 30, 237–246

[iv] Sutin, A. R., Stephan, Y., Luchetti, M., Terracciano, A. (2020). Loneliness and Risk of Dementia. The Journals of Gerontology, 75(7), Pages 1414–1422, https://doi.org/10.1093/geronb/gby112

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