Brincar (não) ocupa lugar: breve reflexão sobre a importância do brincar

Imagem: Brincar (2022). Desenho cedido por Adriana Lopes, retirado do seu “Caderno da brincadeira”, projeto em desenvolvimento para tese de mestrado em Antropologia, área de especialização Culturas Visuais

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   Recentemente, em conversa com uma criança, em idade escolar primária, que me falava com entusiasmo da escola, das suas boas notas e do quanto gosta de aprender, perguntei-lhe “Então e quais são as disciplinas, matérias, coisas que gostas mais na escola?”, ao que me respondeu, com grande convicção, “Brincar no recreio!”. Ora que bela e saudável resposta!
   Recorrentemente e com facilidade, se subestima a importância do brincar. É prática comum sobrecarregar os horários das crianças com atividades que lhes roubam todo e qualquer tempo para tal. Parece-me, então, de grande relevância sublinhar que brincar é matéria que merece um lugar privilegiado, tendo diversas funções essenciais para o desenvolvimento, bem-estar e saúde mental.
   Brincar é a linguagem de eleição na infância, a que melhor se domina nessa fase da vida. Ao experimentarem vários papéis e identidades, nas brincadeiras que criam, as crianças expressam o seu mundo interno e os afetos que as habitam, ganham experiência e aprendem sobre elas próprias e o mundo que as rodeia. Esta atividade tão prazerosa para as crianças, mas tantas vezes desvalorizada pelos adultos, possibilita o desenvolvimento de variadíssimas capacidades cognitivas, sociais e afetivas; a elaboração de experiências de vida e maneiras de se lidar com o que se sente; e a expansão da imaginação e da criatividade – ferramentas essenciais para o crescimento, a adaptação, o bem-estar e o estar-se vivo.
   Winnicott, pediatra e psicanalista de grande relevância para a psicanálise moderna, define o brincar como atividade fundamental para a vida criativa; e defende que é somente ao ser-se criativo que o indivíduo descobre o seu eu (self) (Winnicott, 1971). Assim, não brincar é sinal de se estar doente e, nesse caso, a indicação de Winnicott é que se intervenha para que a criança possa começar a brincar.
   Para além disso, sabemos, também, que a brincadeira potencia a aprendizagem: as crianças que mais brincam são, por norma, as que mais têm capacidade de concentração na sala de aula e, tendencialmente, as que terão mais sucesso na vida adulta.
   É, ainda, importante que a capacidade de brincar, sinal de saúde mental e bem-estar, que possibilita criação, transformação e expansão mental, nos acompanhe a vida inteira. Na vida adulta, manifesta-se, por exemplo, no sentido de humor, na forma como nos expressamos, brincamos com ideias e palavras, exercemos as nossas atividades e nos divertimos.
   Que nunca se deixe de brincar!

Referência bibliográfica: Winnicott, D. W. (1971). Playing and reality. Penguin.

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